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Automação e bancos: mulheres e trabalhadores mais jovens concentram o maior risco

Automação e bancos: mulheres e trabalhadores mais jovens concentram o maior risco

A discussão sobre inteligência artificial generativa e mercado de trabalho costuma ser tratada de forma ampla, como se o impacto da automação afetasse todos os trabalhadores da mesma maneira, no mesmo ritmo e com as mesmas consequências.

Mas não é isso que os dados mostram.

A pesquisa “Disruption without Dividend?”, publicada pela Organização Internacional do Trabalho em março de 2026, aponta que, dentro das ocupações mais expostas à automação, existe um padrão importante: mulheres e trabalhadores mais jovens concentram proporcionalmente mais risco do que outros grupos.

No setor bancário, essa discussão merece atenção especial. Bancos e instituições financeiras estão entre os ambientes mais impactados pela digitalização, pela automação de tarefas e pelo uso crescente de inteligência artificial generativa em atividades administrativas, operacionais e de atendimento.

Para o Direito do Trabalho Bancário, entender quem está mais exposto a essas mudanças é essencial para analisar situações como alteração de função, esvaziamento de atribuições, reestruturação operacional, demissões e mudanças nas condições de trabalho.

O que a pesquisa da OIT analisou

O estudo da Organização Internacional do Trabalho cruzou dados de 135 países para estimar a exposição de diferentes grupos populacionais à automação e ao potencial de ampliação de capacidades pela inteligência artificial generativa.

A análise levou em conta fatores como gênero, faixa etária, nível de escolaridade e setor de atuação.

No setor financeiro, identificado como um dos setores de maior exposição à IA generativa em todos os grupos de renda analisados, os padrões de vulnerabilidade seguem uma lógica específica.

Isso significa que a automação no setor bancário não afeta todos os trabalhadores da mesma forma. A depender da função exercida, da posição ocupada e do tipo de tarefa desempenhada, alguns grupos podem sentir os efeitos dessas transformações antes de outros.

Mulheres em funções administrativas estão mais expostas à automação

Um dos pontos centrais do estudo é a maior exposição das mulheres ao risco de automação em determinadas ocupações.

Em economias de alta renda, cerca de 17% das trabalhadoras enfrentam risco de automação por inteligência artificial generativa, contra aproximadamente 11% dos trabalhadores homens. Em economias de renda média-alta, essa diferença também aparece: 10% das mulheres contra 6% dos homens.

Essa diferença não acontece por acaso.

Ela está relacionada à forma como o mercado de trabalho foi estruturado ao longo do tempo. No setor bancário e financeiro, mulheres ocupam em maior proporção funções de suporte administrativo, processamento de dados, registro de informações, triagem documental e atendimento padronizado.

São justamente essas atividades que apresentam maior potencial de automação.

Tarefas como entrada de dados, processamento de formulários, conferência de informações, organização de documentos e atendimentos de rotina podem ser parcialmente substituídas ou reorganizadas por sistemas digitais e ferramentas de IA generativa.

Na prática, isso pode significar mudanças importantes para trabalhadoras bancárias: alteração de atribuições, redução de tarefas tradicionais, acúmulo de novas responsabilidades, esvaziamento de função ou até dispensa justificada como reestruturação operacional.

Por isso, a automação no setor bancário também precisa ser observada sob a perspectiva de gênero.

Trabalhadores mais jovens e o risco nas funções de entrada

O recorte etário da pesquisa também revela uma assimetria relevante.

Em economias de renda média-alta, cerca de 10,4% dos trabalhadores entre 16 e 35 anos enfrentam risco de automação, contra 4,3% dos trabalhadores entre 56 e 65 anos.

No caso dos trabalhadores mais jovens, o risco está relacionado principalmente à posição ocupada dentro da estrutura profissional.

Jovens trabalhadores costumam ingressar no mercado por cargos iniciais, funções de entrada, programas de trainee, posições de assistente, atendimento, apoio administrativo ou atividades operacionais. Essas funções, muitas vezes, concentram tarefas mais padronizadas, repetitivas e baseadas em procedimentos definidos.

São justamente essas tarefas que podem ser mais facilmente automatizadas.

No setor bancário, isso levanta uma questão importante: se cargos iniciais, como operador, assistente administrativo, atendente ou caixa, forem progressivamente reduzidos ou automatizados, quais serão os caminhos de entrada e crescimento profissional para os trabalhadores mais jovens?

O estudo chama esse fenômeno de “white-collar bypass”, ou seja, a possibilidade de que funções de entrada em ocupações qualificadas deixem de existir antes que os trabalhadores mais jovens possam utilizá-las como primeiro passo de uma trajetória profissional.

Para os bancários, isso pode significar uma mudança profunda na forma de ingresso, permanência e progressão dentro do setor financeiro.

O que a automação significa na prática para bancários

Para quem trabalha em banco, a automação raramente aparece de forma isolada ou com esse nome.

Na rotina, ela pode surgir como uma nova ferramenta digital, uma mudança de sistema, uma reestruturação interna, uma redução de equipe, uma alteração de função, uma mudança nas metas ou uma transformação no atendimento ao cliente.

O trabalhador pode perceber que tarefas antes realizadas por pessoas passaram a ser feitas por sistemas. Pode notar que sua função foi esvaziada, que novas responsabilidades foram acumuladas, que as metas ficaram mais difíceis ou que a justificativa para desligamentos passou a ser “reestruturação operacional” ou “transformação digital”.

Essas mudanças precisam ser analisadas com atenção.

Conhecer o perfil de maior vulnerabilidade, especialmente mulheres em funções administrativas e jovens em cargos de entrada, ajuda o trabalhador a compreender se sua situação faz parte de um movimento mais amplo dentro do setor bancário.

Também pode ser relevante para quem foi demitido e busca entender se a dispensa teve relação com mudanças estruturais, reestruturações internas ou automação de atividades.

Automação, reestruturação operacional e direitos trabalhistas bancários

O Direito do Trabalho não acompanha automaticamente a velocidade das transformações tecnológicas. No entanto, os efeitos concretos dessas transformações podem ser analisados à luz dos direitos trabalhistas existentes.

A implementação de tecnologia, por si só, não significa irregularidade. Empresas podem adotar novas ferramentas e reorganizar processos internos.

O ponto de atenção surge quando essas mudanças geram prejuízo ao trabalhador.

No setor bancário, algumas situações podem exigir análise jurídica individual, como:

  • alteração unilateral de função;
  • esvaziamento de atribuições;
  • mudança de cargo apenas na prática, sem formalização;
  • aumento de metas sem condições compatíveis;
  • redução de equipe com acúmulo de tarefas;
  • dispensa concentrada em determinados perfis de trabalhadores;
  • adoecimento relacionado à pressão e à reestruturação;
  • mudanças de jornada ou rotina sem transparência;
  • demissões justificadas como transformação digital ou reestruturação operacional.

Cada caso depende de documentos, histórico profissional, função exercida, metas aplicadas, comunicações internas e forma como a mudança ocorreu.

Mas compreender o contexto da automação no setor bancário ajuda a enxergar que determinadas situações não devem ser tratadas apenas como problemas individuais.

O que o trabalhador bancário deve observar

O trabalhador bancário deve ficar atento quando perceber mudanças relevantes na rotina, especialmente se elas ocorrerem sem comunicação clara ou sem formalização.

Alguns sinais merecem atenção: perda gradual de atribuições, mudança significativa de função, novas metas incompatíveis com a realidade do trabalho, redução de equipe, acúmulo de tarefas, substituição de atividades por sistemas, reestruturação sem explicação transparente ou dispensa após mudanças tecnológicas.

Para mulheres em funções administrativas e trabalhadores mais jovens em cargos de entrada, essa atenção pode ser ainda mais importante, já que a pesquisa da OIT indica maior exposição proporcional desses grupos à automação por inteligência artificial generativa.

A conexão entre automação, mudança de função, reestruturação operacional e direitos trabalhistas não é automática. Cada situação precisa ser analisada de forma individual.

Ainda assim, informação é um passo importante para que o trabalhador compreenda sua própria realidade e saiba quando buscar orientação.

Na Anjos Ramos Advogados, acompanhamos de perto as transformações no trabalho bancário e seus impactos sobre a função, a jornada, a saúde e os direitos de quem trabalha.

Informação também é proteção, especialmente quando as mudanças no trabalho acontecem antes mesmo de serem explicadas.

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